Tenho ido lá toda a semana, não nutro nenhuma paixão, mas acho que vale a pena.
A Restinga é um bairro de Porto Alegre conhecido pela violência, por se um pólo de resistência popular e por ser muito, mas muito longe. Para o tamanho da nossa cidade, viajar uma hora em uma linha de ônibus expresso ou levar 45 minutos de carro, sem NENHUMA tranqueira, é longe. Pra se ter uma idéia, as praias mais próximas ficam à uma hora, e a gente já acha que, às vezes, não vale a pena a viagem.
Mas o trajeto e a breve estada na Restinga têm outros valores. Seja qual for o caminho (conheço pelo menos três), todos têm uma parte rural. Há sítios, gado, patos e marrecos, porcos, cabritos, plantação de uva e muito verde. A vista é realmente bonita, quando olhada ao longe, porque ainda é cidade. O clima lá é outro, muito quente, de um calor que vem do chão de barro, um barro seco, cor de farelo de tijolo misturado com areia. Lembra um pouco a praia. Há uma avenida central, que divide o bairro entre Restinga Velha e Restinga Nova, dizem que hoje são rivais no tráfico. Essa avenida é o centro, como o de uma pequena cidade.
Não há quase prédios nem árvores, o que torna o calor maior, porque não tem sombra. As ruas principais são quase todas de paralelepípedos e as outras são de chão, daquele areião avermelhado. Em algumas partes existem casas boas, em outras, são barracos. As ruas são muito calmas, com as pessoas andando onde os carros deveriam passar. Ainda que seja um bairro grande, enorme no mapa, se pode atravessar quase todo ele a pé. E assim o pessoal da Restinga faz.
O ritmo da vida perece ser outro lá. Tudo anda mais lento, uma parte do comércio fecha ao meio dia e só abre lá pelas duas da tarde. As pessoas almoçam em casa ou no trabalho, na verdade, nunca vi um restaurante. Não que não tenha, mas não vi, só lancherias.
A Restinga nasceu, como quase tudo o que está longe do Centro, para apartar a população indesejável, ou pobre, ou supostamente improdutiva, das áreas centrais da cidade.
Gosto muito de mapas antigos e da história da urbanização, e, se virmos os prédios antigos de encarceramento e hospitalização da cidade, bem como os bairros pobres, estão, TODOS, onde um dia foram ou são periferias.
A Santa Casa de Misericórdia estava nos limites da cidade; o presídio Central, o Presídio Feminino Madre Pelletier, o Sanatório Partenon, o Hospital Psiquiátrico São Pedro e o Hospital Parque Belém estão em áreas isoladas, na sua época de construção, dos bairros nobres . Entre os bairros, além da Restinga, estão o Parque dos Mais, o Rubem Berta, o Humaitá. Todos deslocamentos populacionais promovidos pelo governo para as periferias.
Bem, não vamos discutir isso aqui, era só pra constar.
Há bons relatos da história do bairro nestes lugares:
Wikipédia (claro), Prefeitura Municipal de Porto Alegre e Práticas e Saberes Populares da Restinga.
Mas conhecer a Restinga é como viajar para qualquer outro lugar.
É ir para outro tempo, pra outra história, pegando uma estrada dentro da cidade, ouvindo gente que resistiu ao ser ignorada e resiste, e muito, ainda hoje, contra uma história dura e difícil.
Nem todos moram na beira de um valão, em um casebre de chão batido, onde o pátio cheira a areia molhada pelo esgoto. Nem todos estão envolvidos como tráfico e com a violência.
E, principalmente, não estão de um lado ou de outro. Lá existe um povo que briga pelo seu lugar, que briga por si mesmo, que resiste.
Por isso, viajar pelos lugares, é conhecer os povos, é escuta-los e reconhecê-los.
A diferença está no arroubo da arquitetura, na quantidade de anos e nas obras estéticas. Mas acho que nada disso faz de um lugar melhor do que o outro.

Mapa de Porto Alegre, com a Restinga sinalizada em vermelho.

Vista aérea da Restinga.