Só pra constar

5 02 2010

Bom Ar espanta bruxas gigantes.

Água que jorra pelo meio fio pode ser a melhor coisa do mundo.

Fechar um pouco a janela do ônibus torna o vento menos quente.

Ceva cura TUDO até o dia seguinte. Mas só até abrir o olho esquerdo.

Futebol pode ser um prazer pra mulheres que desprezam a bola. E isso não tem nada a ver com jogadores.

Lavar roupa no tanque pode ser a melhor coisa pra se fazer.

Faxina no banheiro numa segunda-feira pode ser uma das melhores formas de acabar o dia.

O desespero não exite.





Dos usos do corpo

13 01 2010

Como profissional dos semblantes psíquico e social, de uma categoria que tende a não privilegiar o corpo, me surpreendo quando ele se faz presente. E é perfeitamente esperado que ele se faça presente.

Não acho necessário reafirmar onde o corpo está presente, parece que sabemos, que sentimos. Também não se trata de uma dicotomia ou antagonismo quaisquer entre corpo e mente. Não acho que isso exista.

Me surpreendo quando o corpo não nos corresponde, quando não se é o que o corpo é. Estamos mais acostumados com esta idéia em relação a pessoas de idade avançada, que não podem fazer o que faziam em função das limitações do corpo. Não estranhamos isso, parece ser o caminho “natural”. O mesmo acontece com quem sofreu acidentes limitantes. Nos penalizamos.

Mas julgamos e condenamos quem, sem ter estas condições, não se encontra no corpo que tem. Geralmente está associado a questões de gênero (ser psíquica e socialmente homem ou mulher) e sexualidade (como a sexualidade, tanto sob o aspecto dos atos sexuais – o que é somente uma porção – quanto sob o aspecto das relações) é exercida e, então, temos um problema.

Ou se nasce homem ou se nasce mulher, biologicamente.

Ou se exerce a sexualidade como é aprendida socialmente, ou não é aceita.

E quando não se cabe em si?

As questões do corpo são constitutivas do sujeito e sabemos que algumas doenças emergem de construções psíquicas, por exemplo, e todos os outros usos do corpo são constitutivos também, em uma esfera sigular e social.

Mas não reconhecemos isso quando nos parece ser uma questão de gênero (como o travestismo e o transsexualismo) ou de sexualidade (como o muito falado homossexualismo ou um corpo bastante esculpido, seja por exercício, seja por cirurgias, um corpo hipersexualizado – Geisy da UNIBAN, um corpo de mulher masculinizado, um corpo de mulher disfarçado – Lady Gaga foi tachada de hermafrodita).

O problema é que, assim como o corpo também é uma construção social, ele está presente no social, é vestido assim, é usado assim, os olhares que se têm sobre ele têm seus efeitos.  E o olhar que temos sobre este corpo que nos parece distoar e que evitamos e rechaçamos, apaga o sujeito dele.

Essa é uma condição de sofrimento para quem não se encontra no seu corpo, porque deixa de ser visto e, em última instância, é uma condição enlouquecedora.

Mas, para podermos olhar aquele sujeito para além da estranheza que o corpo imprime no social, temos que nos despojar um pouco do nosso próprio corpo. E realmente isso não é fácil. E porque seria? E porque exigimos isso dos outros?





Suspiro

8 01 2010

Não recebia cartões de Natal há algum tempo. Este ano recebemos um do entregador de jornal. Agradecemos pessoalmente.

A assinatura do cartão, com letras garranchudas e gordas, dizia: “São os sinceros votos do seu entregador de jornal”.

Foi o único cartão em papel assinado pessoalmente.

Mas recebi outros quantos, de outros jeitos, e resolvi responder a todos hoje.

As pessoas falam mal dos presentes de Natal, da correria, dos implusos de comprar e outras coisas mais, mas não deixam de prestar atenção à data e mandar suas felicitações. É um tipo de presente e recebi de braços abertos este ano (com algum atraso).

Embora seja uma festa cristã, e muitos prestem tributo a ela, é um momento de passagem que vem acoplado ao Ano Novo.

Não sou praticante de nenhuma religião, mas, pela tradição familiar, monto o pinheirinho e o presépio (um tanto blasfemado, mas ele está lá). Este ano dois reis magos faziam um conchavo qualquer.

Me surpreendo com o significado que têm, para alguns, essas passagens de datas.

O Natal tem um apelo familiar e religioso, um apelo, primordialmente, de valores, afinal, é uma tradição cristã.

O Ano Novo, me parece, de festa pagã, de prazeres, de desejos e de expiação, o que não condiz.

Ou expiamos o que passou, seguindo a tradição da semana anterior, ou corremos pro abraço. Mas não, em uma semana passamos com as famílias, abraçamos os parentes, trocamos votos e, na outra, usurpamos, de nós mesmos, todo o ano que fizemos, todos os anos anteriores, como se não houvesse amanhã nem ontem.

Não acho nem um pouco estranho que a polícia fique em alerta nesta época, afinal, o que mesmo é proibido? Parece que, quando chega 31 de dezembro, vamos nos tornar outras pessoas, vamos mudar a história dos nosso 15, 30, 50 anos.

Nada muda, apenas nos lembramos, no Natal, de quem somos e, no Ano Novo, de quem queremos ser. Mas é tudo muito rápido. E imaturo, infelizmente.





Diálogo de um só

11 12 2009

A senhora entrando no ônibus, raivosa, para mim:

- É uma falta de respeito, eles deixam a gente na chuva, eu pego o mesmo ônibus todo dia e eles nem me esperam.

Comento algumas coisas, e ela continua esbravejando. Mostro a ela, num cartaz do ônibus, o 118 para ligar e reclamar.

- É que eu sou surda, só leio.





Baldeação sem erro

4 12 2009

Pra facilitar a minha vida entre uma baldeação e outra, aprendi o seguinte (que não deixo de achar engraçado):

CARRIS

Zonas:

Centro  até  imediações do bairro Auxiliadora.

Centro  até imediações do Campus do Vale.

Transversias (a cidade de cima a baixo).

Circulares (voltinhas no centro).

Coloridos:

Listras laterais amarelas e marrons.

Pintura totalmente branca para linhas comuns. Hoje poucas são assim.

Pintura amarela na parte de baixo para linhas Transversais (T1 a T11) e Circulares (C1 a C3). Hoje quase todos são amarelos em baixo.

Carris comum

Carris Transversais, Circulares (antigos) e outros

CONORTE

Zonas:

Centro até Zona Norte (desde o Passo D’Areia até Parque dos Maias e Sarandi).

Itu Sabará até Independência.

Coloridos:

Listras laterais amarelas e vermelhas.

Os que trafegam pela Avenida Assis Brasil são todos brancos.

Os que também trafegam pela Avenida Sertório são azuis escuro na parte inferior, assism como as linhas Diretão, que vão pela BR 290.

Os que vão pela Av. 24 de Outubro são amarelos em baixo.

Conorte comum

Conorte, via Av. Sertório/Farrapos

Conorte, via Av. 24 de Outubro

STS

Zona:

Centro até  Zona Sul (Lami, Restinga, Belém Velho)

Coloridos:

Brancos, listras laterais amarelas e azuis.

Os amarelos em baixo vão para o Menino Deus, sobem a Vila Cruzeiro (Icaraí) e são as linhas Rápidas (como a Rápida Restinga). Talvez tenham outras.

STS comum

STS Rápidas, Cruzeiro e Menino Deus

UNIBUS

Zona:

Centro até Nordeste (Bom Jesus, Rubem Berta) – trafegam pela Av. Protásio Alves.

Centro até imediações das Av. Bento Gonçalves, Caldre Fião, Oscar Pereira (Agronomia, Lomba do Pinheiro, Partenon). Tem algumas linhas que fazem trajetos entre a Lomba, Agronomia e Restinga.

Coloridos:

Listras amarelas e verdes.

Linhas Rápidas são amarelas na parte inferior.

UNIBUS comum

UNIBUS Rápidas

Bem, eu não tinha muito o que fazer hoje, então compartilhei isso.

Muitos outros detalhes cercam nossos ônibus e continuo achando, quase sempre, muito HUMANO andar apertada no meio de um monte de gente suada.

Mas é melhor saber para aonde se vai do que escolher o arzinho, como fez meu pai uma vez. Pegou o primeiro que tinha ar condicionado e quis brigar com o cobrador porque não ia para aonde ele queria.





Fazer turismo em Porto Alegre é passar uns tempos longe

4 12 2009

Cresci em uma cidade grande e demorei bastante a exprolá-la. Hoje posso dizer que a conheço e que não tinha muito mais o que descobrir.

De fato, não tem nada de muito novo por aqui. Já andei abaixo de sol a pino em muito beco de chão batido e muros salpicados, com casas feitas de sobras de madeira e pessoas que só tentam viver a sua vida.

Já passei por aquela rua em que dá medo de entrar num café, porque a gente pode ter que pagar R$ 10,00 por um expresso, conheço a feira ecológica no Bom Fim e a outra, da Vasco (que não é Vasco, mas José Otão).

Tenho os medos que a cidade tem, de assalto, de falar com estranhos, do desconhecido. Mas, se for preciso, estamos aí.

Conheço bem os museus e vários dos bares, seus donos, garçons e clientes.

Sei as rotas de quase todos os ônibus e sei que cada empresa deles tem uma pintura das carrocerias que indica, também, a zona na qual trafegam.

As pessoas andam sozinhas nas ruas, algumas falam consigo mesmas, organizando o assunto do dia no fim de tarde, voltando pra casa; outras vão embaladas pelos seus fones. Não se olha muito para os lados, no máximo para o sinal de trânsito e para as vitrines.

Sempre quis descobrir o novo na minha cidade. Encontrei no invisível, não nas imagens que nos captam nem nas palavras que resvalam.

Tenho vivido em duas cidades ao mesmo tempo. Durante boa parte do dia, estou em outra, onde trabalho, distante uns 60 km daqui.

O que descobri de novo aqui é o mesmo que é novo lá.

Porto Alegre é um lugar que, por mais sozinhos que sejamos, por maior a distância que guardemos do nosso parceiro de calçada, ouvimos o que o outro nos fala, sem medo, sem reservas. Nos garantimos, revidamos, argumentamos, discutimos, convidamos pra tomar uma ceva, marcamos um encontro, nos tornamos parceiros de trabalho, enfim, de um esbarrão, com uma palavra inesperada e que não era bem vinda, fazemos alguma coisa com ela, mas a ouvimos.

Onde tenho passado os meus dias, parece ser perigoso fazer alguma coisa com o que nos dizem. Somos o que somos e não tem discussão. É tudo muito duro, porque posso me desfazer e me perder se ouvir essa voz. Meu lugar tem que ser demarcado nesse terreno pequeno.

Assim tenho redescoberto de onde venho. Não há risco de ser atravessado pela multidão se andamos junto com ela por algum momento e refazemos nosso trajeto. Mas num lugar pequeno, com uma cultura tradicional e rígida, fazer novos trajetos é perder-se.





Dia carregado

20 11 2009

Enquanto atendia, por volta das 13 hs hoje, o respiro que pude dar foi olhar pela parede de vidro da minha sala e ver um mundo escuro e revolto, lindo.

Não vi Porto Alegre. Cheguei e as pessoas estavam ainda aparvalhadas, com vendedores de sombrinhas, árvores arrebentadas e um sol que despontava no horizonte.

Sombras





Do lugar da palavra

13 11 2009

Me surpreendi hoje com um dos lugares que a leitura tem para mim.

Tive que esperar, por mais de uma hora, o início de uma audiência na qual seria testemunha. Fóruns são sempre bastante demorados. As salas de espera, como quaisquer outras, não têm nada pra fazer, a não ser passar junto com o tempo. Bem, nessa, nem revista tinha, nem folheto, só cartazes nas paredes.

Li e reli os cartazes. Quando me dava conta, estava lendo novamente.

Observava as pessoas ao redor. Duas mulheres falavam com seu advogado (que parecia um vendedor) e liam o processo.  Estavam estarrecidas com uma tal carta falsa que apareceu nos entremeios das peças jurídicas. O advogado ia fazer uma cópia para elas.

Três adolescentes foram dispensados de uma audiência. Um policial militar também (talvez fosse a mesma).

A promotora usava um vestido que deixava bastante visível sua tanga.

As mulheres do fórum galopavam com seus saltos.

As pessoas usavam roupas de quem mora no nordeste.

Bem, nesse meio tempo, lia.

Mas meu trabalho não é o de ler nem de interpretar, é de possibilitar reescritas.

Me satisfaço. O meu tempo é de leitura. O tempo que tenho para o outro é de escuta. Essa desacomodação que o meu trabalho me convoca me fascina.





Ele e o outro cara

12 11 2009

- Tu viu o e-mail que o Fred mandou? Do aniversário?

- Mas é dele e de outro cara né?

- Não, o nome dele é Rafael Palmeira.

- Sério? Bah.





Dos sonhos

11 11 2009

Fico impressionada como a cidade é o limite das pessoas.

Numa cidade de fábricas, o sonho é trabalhar em uma.

E romper os limites da cidade é cair em outros.