Não por acaso esta é uma das minhas categorias. Isto é o que move o meu trabalho. Isto é o que me faz chorar, odiar, esbravejar, sorrir, estar em êxtase. E, também, o que me leva, ou como me levo, às odes colérias e alcoólicas. Há que se abrir um parênteses, que a sabedoria toma espaço com o tempo e os excessos não têm mais me acometido. Já posso ver a juventude. E isso me soa engraçado.
Finda essa introdução de justificativas, vamos ao que interessa.
Fico cansada de ver na TV e nos jornais matérias sobre o crack. Parecem exageradas, caracteriológicas. Mães que amarram filhos com correntes, pessoas que levavam uma vida “normal” até chegaram ao crack e agoram lutam para se recuperar, depoimentos emocionantes.
Na clínica e no trabalho diário é aterrador o que se houve. E é aterrador o que se sabe, ou o que não se sabe.
Trabalho em uma cidade relativamente pequena, de colonização alemã, com costumes um tanto rígidos, ou tradicionais. E o que escuto é a fragilidade de todos perante o crack. E o que escuto em Porto Alegre é exatamente a mesma coisa.
- As pessoas não sabem do grau de dependência que a droga causa.
- As pessoas não sabem da rapidez com a qual a dependência se instala.
- As pessoas não têm noção do que é dependência. Não é vontade, não é desejo, não é necessidade. Provavelmente não sei descrever, mas é insaciável.
- As pessoas experimentam, ingenuamente, como fazem com as outras drogas. Crack não se experimenta. Tenho descoberto isso.
- As pessoas pensam que usando com maconha (pitico) é mais fraco. Sim, mas a dependência se instala igual. Não tem saída. É uma redução de danos enganada.
- As pessoas acreditam que há tratamento. E isso é o mais aterrador. Não existe um conseno, nem perto disso, sobre o tratamento para dependência de crack. É uma droga nova, pouco pesquisada em suas potencialidades, efeitos, usos, regionalizações, etc.
- As pessoas acreditam que internação cura. Nenhuma dependência química tem cura. Existe estado de abstinência. Internação apenas desintoxica.
- As pessoas acham que usar com amigos ou família (sim, famílias utilizam, especialmente grupos de irmãos) não é um mal sinal. Notícia: o crack não é social, como o álcool, que aceita esse uso.
- As pessoas passa a perder tudo: vendem tudo o que é seu, vendem o que é da família, vendem o corpo, trabalham pro tráfico, devem, são ameaçadas, a família paga a dívida, a família busca ajuda, o usuário passa a correr risco de vida, comete crimes, rouba, assalta, perde a confiança da família e, algumas vezes, busca ajuda. Mas, até aí, muita coisa se perdeu.
O pior, perdeu-se avida. É preciso começar TUDO de novo.
Por o pé na calçada é sinônimo de crack.
Ter dinheirto é sinônimo de crack.
Reencontrar amigos é sinônimo de crack.
Voltar para a escola, o trabalho, o lazer, pode ser sinônimo de crack.
Porque ele estava em todos esses lugares.
E o mais impressionante, é que a pessoa não tem quase qualquer controle. Qualquer coisa que ela fizer pode levar a outro cachimbo.
Entendo as mães que acorrentam e os filhos que pedem, literalmente, pra ser presos, porque não aguentam mais. Entendo, mas lamento que seja assim.
Ainda não posso fazer compreensões mais aprofundadas, mas vejo que o sujeito some, morre frente ao crack. Não sobra quase nada depois dele. Mesmo que aquele sujeito não queira, com toda a sua vontade, usar, ele vai outra vez. O desejo dele não basta. Não basta para si e não basta para a droga.
Vejo guris de 12 anos assim, gurias mães aos 13 assim, homens aos 40 assim, mulheres mães dedicadas aos 35 assim.
E quando repito “as pessoas”, é porque é isso mesmo. São TODOS.
O contexto do crack me enche de questionamentos e tristeza.
Como é que alguém consegue pensar e encarar a pedra como um negócio rentável, porduzi-la, distribuí-la e vendê-la sem pesar a destruição que ela causa? Que indiferença é essa pelo próximo? Se envolver com a pedra, não só no caso do usuário, mas em todas as instâncias, é assinar um pacto com a morte. Por que as medidas de informação, prevenção, punição, controle, etc, tomadas pelo estado são tão inexpressivas?
É preciso muita humildade para conseguir considerar o fator “ingenuidade” e se livrar dos julgamentos, que predominam nestas situações. Julgar e acusar é muito fácil. Difícil é compreender, comunicar, conscientizar.
Pesado.
Dá uma olhada neste texto e imagens do fotógrafo João Wainer: http://joaowainer.wordpress.com/2010/01/14/cracolandia/
[Saudades]
Júlia, é muito triste mesmo e impele muitos porquês.
Se assina um pacto com a morte, mas que não partiu de um desejo de morte, o que torna tudo tão mais desesperador. Se assina em branco.
Aprendi, nos tempos de trabalho nas ruas, que a saída de casa, a rua como moradia pode ser, e na maioria das vezes é, uma forma de tentar sobreviver. Não tem a ver com morte. A droga também ocupa esse lugar. Tem a ver com tentar fazer outra vida, longe do desespero que ela é. Mas o crack desbanca isso, sem avisar. O crack mata qualquer possibilidade disso.
Gostei da tua indiação, obrigada.